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Ascensão x Queda: Por que os times brasileiros vão se igualar aos argentinos em títulos de Libertadores?

A Copa Libertadores é o principal torneio de futebol da América do Sul. Apelidada pela CONMEBOL de “A Glória Eterna”, a competição é a mais visada pelas equipes do continente, onde times que nunca a conquistaram buscam incansavelmente o título, enquanto os campeões desejam ampliar cada vez mais sua hegemonia. Por muito tempo, o torneio foi completamente dominado por equipes de países hispânicos, sendo clubes argentinos os principais vencedores, que se vangloriavam diante de tal feito.

Reprodução - Comercial Amanco 

O comercial humorístico da Amanco, feito em 2009, representa perfeitamente esse dado. Na ocasião, a vantagem dos times argentinos em relação aos brasileiros era de 22 x 13. Entretanto, no atual ano de 2025, a contagem empatará em 25 x 25, já que Palmeiras e Flamengo decidirão o título da competição, no próximo dia 29/11. O vencedor, inclusive, será o primeiro clube do Brasil a conquistar o tetracampeonato da Copa Libertadores.

A hegemonia dos clubes hispânicos se deu, entre outros motivos, pela falta de importância dos clubes brasileiros para com o campeonato. O cenário, entretanto, mudou ao longo das décadas, após o São Paulo ser bicampeão em 1992 e 1993, quando as equipes brasileiras passaram a valorizar mais a competição, tratando-a como obsessão, a exemplo do tricolor paulista.

A última Libertadores conquistada por um time fora do Brasil, em 2018 

A última vez que um clube não brasileiro conquistou a Libertadores foi no ano de 2018, quando o River Plate venceu o maior rival, Boca Juniors, pelo placar agregado de 5 x 3. De lá para cá, somente times do Brasil venceram o torneio, sendo quatro finais brasileiras. A dominância das equipes locais na principal competição futebolística do continente preocupa torcedores de outros países, pois eles sentem que seus times “pararam no tempo”, enquanto as equipes daqui ascenderam e solidificaram uma enorme tradição na América do Sul. É o que conta Geronimo Ezequiel, argentino torcedor do River Plate:

O futebol argentino era muito predominante na Copa Libertadores até a década passada. Como você encara o atual domínio brasileiro dentro desse torneio?

Infelizmente, essa realidade tem se tornado cada vez mais evidente. A desigualdade econômica entre os clubes argentinos e brasileiros vem crescendo de forma acelerada, e isso cria uma distância enorme na preparação, na estrutura e até no poder de investimento das equipes. Enquanto alguns clubes do Brasil conseguem montar elencos fortes, com jogadores valorizados e boa infraestrutura, muitos times argentinos enfrentam dificuldades para manter seus principais talentos ou reforçar suas equipes.

Mas o que considero ainda mais preocupante é a situação interna do futebol argentino. A organização dos campeonatos tem se tornado cada vez mais confusa, instável e pouco coerente. Mudanças frequentes no formato dos torneios, decisões administrativas questionáveis e a falta de planejamento a longo prazo afetam diretamente o nível técnico da competição. Em vez de fortalecer o ambiente esportivo, essas escolhas acabam deixando os campeonatos menos competitivos e os clubes mais vulneráveis.

Como consequência natural, os times entram nas competições continentais como a Libertadores e a Sul-Americana com menos ritmo, menos qualidade e menos preparação. Isso se reflete em campo: quando enfrentam clubes brasileiros, que hoje contam com mais investimento, elencos mais profundos e ligas mais organizadas, a diferença aparece de forma muito clara. Fica difícil competir de igual para igual quando a estrutura do próprio futebol nacional já não ajuda.

O que justifica o fato das equipes argentinas não conseguirem seguir o mesmo padrão de qualidade da seleção local?

O pouco que ainda consegue manter jogadores de qualidade no futebol argentino não tem sido suficiente para segurá-los por muito tempo. Muitos atletas se destacam cedo, mas acabam deixando o país ainda muito jovens, seja pela necessidade financeira dos clubes, seja pela busca por melhores oportunidades no exterior. A realidade econômica fragilizada faz com que os times argentinos precisem vender seus talentos rapidamente para equilibrar as contas, o que impede a formação de elencos mais maduros e competitivos - relata Ezequiel. 

A trajetória recente da Copa Libertadores evidencia uma virada histórica no futebol sul-americano. O domínio historicamente absoluto dos clubes argentinos deu lugar à ascensão das equipes brasileiras, que transformaram estrutura, investimento e prioridade em resultados concretos dentro de campo. O equilíbrio numérico entre Brasil e Argentina nas conquistas, que em 2025 finalmente chega ao empate, simboliza mais do que uma disputa esportiva: representa mudanças profundas na organização e no entendimento do torneio ao longo das décadas.

Enquanto clubes brasileiros como Flamengo e Palmeiras consolidaram sua força com elencos robustos, planejamento e estabilidade financeira, o futebol argentino, apesar de seguir revelando talentos de alto nível, enfrenta obstáculos internos que dificultam a manutenção da competitividade no cenário continental. Essa desigualdade estrutural, somada a calendários instáveis e a desafios econômicos, cria um abismo que se reflete diretamente no desempenho internacional dos clubes.